Setembro de 2001

O diário de um cubano na Ilha de Santa Catarina

Embaixador de Cuba no Brasil vem a Florianópolis para fazer palestra em ato de solidariedade a seu país. De lambuja, dá entrevistas, é recebido pelo governador Luiz Henrique da Silveira, pelo presidente da Assembléia Legislativa, Volnei Morastoni, e diz que a Ilha, a da magia, é parecida com Havana.

Já é quase uma hora da madrugada da terça-feira 9/9 quando o embaixador de Cuba no Brasil, Jorge Lezcano Pérez, confirma uma informação antiga, mas assombrosa, de 1999. Ele está sentado no banco de trás do Vectra de placa MDS 8372, prateado e de propriedade do governo do Estado de Santa Catarina. A sua voz de trovão tem um leve e inofensivo perfume de limão e cachaça. A noite é fria, a bandeirola de Cuba está pendurada numa antena no lado direito do capô, tremulando sob a noite de Florianópolis. De acordo com o Direito Internacional, o carro que transporta o embaixador do centro da cidade para a Carvoeira, bairro nos arredores da UFSC, é parte do território cubano. Um pneu furado seria passível de qualquer suspeita, de traquinagem a terrorismo.

Acomodado, o embaixador vinha falando sobre mídia. Fazia elogios sinceros, quase fervorosos ao Fantástico (“A TV brasileira é curiosa: ou se faz coisa muito boa, como o Fantástico, ou muito ruim, ruim demais”) e lamentava revistas como Veja (“De veja mesmo não tem nada”). De repente, confessou: “Florianópolis é muito bonita, gostei demais dela. É parecida com Havana, pela beleza, o mar, o jeito de ser das pessoas…”. O assunto logo voltaria às artes, à literatura em especial.

Lezcano Pérez ficou então sabendo que nos últimos dias de julho de 1999 acontecia em Chapecó a “Conferência Estadual Por Uma Educação Básica no Campo”. Nela, representantes de vários movimentos sociais, o MST à frente, discutiam maneiras de socializar a educação em todo o interior. No sábado 31 daquele mês, o sociólogo José de Souza Martins, depois de sua palestra e após conceder entrevista ao jornalista Fernando Evangelista, que à época captava imagens para o documentário Reações em Marcha, revelou um fato que foi o assombro de Evangelista e sua equipe: 1 milhão de exemplares de uma edição de Dom Quixote, com gravuras de Pablo Picasso, havia sido vendido nas ruas de Cuba em apenas uma semana.

A essa altura já são 12h52min. O embaixador ouve a história até o fim, sereno, e sorri com uma ponta de orgulho: “É verdade. Dom Quixote foi o primeiro livro editado em Cuba depois da vitória da Revolução. Todos, em todo o canto, leram Cervantes”.

Cabo Damásio, motorista do setor de transportes do Palácio do Governo, e tenente Eduardo, que trabalha na residência do governador, na Agronômica, ambos à paisana, terno e gravata, alheios à conversa, são diligentes o bastante para evitar imprevistos. Em menos de 20 minutos, num trajeto que percorreu as ruas do centro, o túnel Antonieta de Barros e o Saco dos Limões, estacionam o carro já dentro dos muros do hotel Quinta da Bica D’água. O embaixador Lezcano Pérez agradece a atenção de todos, mas reclama um sono que bem merece. A segunda-feira 8 de setembro, em Florianópolis, fora de quebrar.

***

Abertura de reportagem publicada no Fato & Versão, jornal-laboratório do curso de Jornalismo da Unisul, campus  Pedra Branca.

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