
Há farsas que só o cego enxerga
Um farsesco episódio político da semana passada me fez recordar duas passagens da melhor literatura. Primeiro, vejamos a ficção, para depois falar do inverossímil.
Há um livro de Victor Hugo chamado O Homem que Ri. Nele, é contada a história de um menino que, raptado por uma confraria diabólica que realmente existiu na Europa alguns séculos atrás, passa por um procedimento cirúrgico que lhe deixa o rosto repuxado nas bochechas. Para o resto da vida, ele carregará na face um sorriso eterno. Quem lhe fez essa monstruosidade tinha a intenção de vendê-lo como bobo da corte a algum burguês, nobre, príncipe ou rei, exatamente como as outras crianças raptadas e “modificadas” com sucesso – havia mercado para esse tipo de “produto”. Se bem me lembro do enredo – lá se vão anos desde que li o livro –, o protagonista desse belo romance consegue escapar dos confrades antes de ser arrematado por algum comprador, e é recolhido, faminto e enregelado, na floresta por um artista mambembe, que promove pequenas apresentações nas aldeias e vilas em troca de dinheiro ou comida – e nada dá mais dinheiro, como bem sabem até hoje certos produtores da TV, do que uma boa aberração. Então ocorre a mágica: lá pelas tantas, é integrada à equipe circense uma mulher que é cega de nascença, por quem o jovem horrendo se apaixona. E vice-versa: ela jamais verá o esgar absurdo, ele pela primeira vez se sente amado, e não faz a mínima questão de que ela um dia volte a enxergar. É um belo romance, como já disse, mas é de uma cena em específico que eu me lembrei. Se não me engano (de novo), quando o menino se torna homem, descobre que é filho de um importante político britânico, já falecido, e por essas e outras consegue uma cadeira na Câmara dos Lordes, ou pelo menos lá discursa certa ocasião. E é nesse momento que acontece algo incrível: enquanto fala ao plenário sobre uma reivindicação popular, o Homem que Ri vai se irritando, se inflamando, e quanto mais ele se indigna, mais aberto, mais elástico, mais escancarado e indisfarçável fica o riso forçado em sua cara, quando então o plenário quebra o silêncio e vem abaixo em gargalhadas. Ninguém, nem quem preside a sessão, consegue levar aquele freak a sério, e quanto mais zombam dele, mais o Homem que Ri se irrita, a ponto de o ódio tornar-lhe a face risonha como a do maior palhaço que a humanidade já avistou. Victor Hugo, com o seu talento monumental para a narração e a descrição, nos transporta para dentro dessa criatura vexada e irada que, ao arengar sobre algo muito sério, em favor dos povos, é troçado e vira motivo de escárnio dos demais políticos, que dessa forma esvaziam-lhe o discurso e a mensagem. Uma experiência de leitura constrangedora e desconcertante, soberba e inesquecível.
A outra lembrança que me veio foi uma passagem de um dos contos, ou de um dos primeiros romances, do colombiano Gabriel García Márquez. A história se passa em uma daquelas cidadezinhas colombianas irreais, típicas do realismo fantástico latino-americano que o autor ajudou a popularizar. Não sei por que um dia alguém vai atrás do delegado na chefatura de polícia e não o encontra lá. Alguém indica que é provável que ele esteja em casa, e o sujeito que o procura toma esse rumo.
Chegando à residência, flagra o delegado atirando de espingarda contra as nuvens, sem motivo aparente. Então o sujeito pergunta por que diabos o delegado está fazendo isso, e o delegado responde, com a maior naturalidade: para fazer chover e aliviar o calorão dos infernos que faz nessa cidade de merda.
Agora veja este caso que deve entrar para os anais da política catarinense, o qual o DC registrou na edição de sábado, para espanto completo dos leitores atentos. Na terça-feira, a prefeitura de Itajaí encaminhou à Câmara de Vereadores o texto do projeto de Orçamento para 2012. Minutos antes de começar a sessão, o vereador Marcelo Werner, do Partido Comunista do Brasil, fez o que todos os outros vereadores deveriam ter feito: leu o documento. Por meio de sua assessoria, porque ele é cego. Pois foi o político que não enxerga quem descobriu a farsa sob o nariz de todos: o nome de Itajaí não aparece na apresentação do texto oficial, mas sim o de Porto Velho (RO), e trechos do documento podem ter sido copiados do documento redigido nessa cidade. Isso que o projeto passou pelas mãos (não os olhos, presume-se) de secretários, procuradores e até do prefeito. Incrível.
E agora me ocorre uma terceira passagem literária, essa do Mario Quintana: “Analfabeto de verdade é quem sabe ler, mas não lê”.
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Livingstone
Excelente notícia, para estudiosos, acadêmicos e interessados em História: a tecnologia atual (emissores de luz e câmeras digitais) acaba de desvendar um velho manuscrito do aventureiro escocês David Livingstone. Só assim se pode ler sobre um evento testemunhado pelo explorador: o massacre de africanos por traficantes árabes em 1871.
Santo “revival”
O velho Black Sabbath está de volta, com Osbourne, Iommi, Butler e Ward. Fará turnê mundial e gravará disco de inéditas. Foi a notícia do 11/11/11.
Campeão de tudo
Não é o Inter, novato em glórias internacionais, mas o Brasil. O DC de domingo trouxe reportagem mostrando que os remédios, aqui, são, em geral, muito mais caros do que no resto do mundo. O mesmo ocorre com os carros, as roupas, os eletrônicos…