Crônica 11/11 – Diário Catarinense



Mudar, mudar!

O amigo Rodrigo Octávio me diz, no bate-papo do Gmail, que está procurando mudar velhos hábitos, depois do que viu lá fora, da experiência que vivenciou no mundo mais-que-americano do Texas e certas adjacências escolhidas a dedo, em sua primeira viagem internacional. Eu respondo com um incentivo, que ele siga firme e não esmoreça. “Nada mais difícil do que essa luta contra aquilo que nos oxida e nos faz perder tempo, sem que percebamos”, penso.

Mas, que digo eu! Também chego à mesmíssima conclusão que o Rodrigo depois de cada viagem à roda do meu quarto, que é onde fico enfurnado para escrever, trabalhar e pensar na vida. E é com esse pensamento, essa determinação cega – é preciso mudar, mudar! –, que de vez em quando eu vou à janela, ou à sacada, e olho para fora. Por esses dias, o sol está sempre alto, nunca há nuvens e, em geral, passa muito do meio-dia. O calor é tão brabo que ninguém se arrisca naquele lugar que é o país para o qual preciso viajar, a terra que preciso visitar de vez em quando para que os velhos hábitos, os meus velhos hábitos, comecem a mudar: a pracinha aqui em frente.

Sei, por conversas com vizinhos – esses conterrâneos desconhecidos, esses companheiros de viagem de quem não sei o nome ou a idade –, que a praça é uma conquista da comunidade. Foi preciso que a vizinhança se mobilizasse, exigisse, gritasse, manifestasse toda a sua vontade de ter uma praça para que os vereadores, os empreendedores e as pequenas realezas que, no microplano, mandam e desmandam em Florianópolis, aceitassem ter uma praça em vez de mais um prédio no lugar.

Vencida a disputa, com tudo combinado, nasceu a pracinha. E tem crescido, ano a ano: já ganhou árvores, um gramado extenso com campo de futebol, quadra de vôlei de praia (estamos em Florianópolis, estamos também no Rio), bancos para os namorados e as mães descansarem enquanto as crianças se divertem e esfolam os joelhos nos brinquedos do parquinho – escorregador, gangorra, balanço, uma estrutura semelhante a uma cabana que oferece mil desafios –, um passeio traçado com britas, iluminação própria. E lá está ela, à espera de quem tanto a desejou, pedindo para ser desfrutada.

E como é utilizada e aproveitada a pracinha! As senhoras a percorrem durante 40 minutos, num trote rápido de quem – veja só – parece muito preocupado com os rumos da própria vida. Os homens de meia-idade correm em volta dela, controlando os minutos no relógio de pulso, caminhando para tomar fôlego. As crianças fazem lá a anarquia inocente delas. Os casais procuram os bancos e namoram como se não estivessem nem um pouco preocupados com os rumos da vida. As amigas se deitam ao sol nas tardes de sábado e trocam uma conversa preguiçosa, até que adormecem acariciadas pela brisa que alivia o torrão. Balzaquianas correm, caminham, se exercitam e cuidam dos filhos: tudo ao mesmo tempo, pois acham – bobas – que a vida as está traindo e passando muito depressa, levando-lhes a beleza. E eu na sacada.

É que a pracinha está, para mim, à mesma distância que o Texas e o mundo lá fora estão para o Rodrigo. Não deveria, porque eu saio do portão, atravesso a rua e estou na praça. Mas o dia a dia, o vaivém e o cotidiano atribulado tornam este um destino inalcançável. Eu já andei por lá, claro. Também eu fui cuidar de criança. Também eu namorei sentado. Também eu bati uma bola ou outra. Também eu – confesso – escalei a cabana desafiadora. Também eu caminhei e corri em volta da praça. Mas sempre de passagem, esporadicamente, sem regra nem disciplina, como um turista.

Vou à janela, espio a praça, e decido: hoje eu volto lá.

***

A besta do exame!

Cada vez que sai o resultado das provas do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é aquele alarde: metade ou mais da metade ou – o que é mais comum – muito mais da metade dos inscritos é reprovada. Agora, foi a vez do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, que aplicou uma prova, ainda que não obrigatória, e colheu este resultado final: dos 418 formados que responderam às questões, quase 200 não foram aprovados. Eles ignoram conteúdos básicos a respeito de diagnósticos e tratamentos de doenças e problemas como dor de garganta. Decerto as provas é que são estúpidas!

Vale a pena

Expressão que não entendo: “Vale a pena a leitura”. Alguns vão ainda mais longe: “Realmente vale a pena ler esse texto”. Decerto ler dá muito trabalho.

Na pinta

E o Nem, um dos traficantes mais procurados do Rio de Janeiro, cidade rica em traficantes, foi preso na madrugada desta quinta-feira como se já soubesse que iria virar o centro das atenções globais e nacionais: de camisa e calça social. Exatamente como um homem de negócios sério deve se vestir.

Uma resposta para Crônica 11/11 – Diário Catarinense

  1. Dauro Veras disse:

    Pra mim, ler só dá trabalho quando é por obrigação. Ou numa língua estrangeira que eu não domine, ou seja, quase todas. No mais, é prazer puro. Agora escrever, definitivamente, dá trabalho, por isso “vale a pena”, quando sai algo que preste. Abraço domingueiro e parabéns pelas crônicas. Dauro

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