Setembro de 2001

22/11/2011

O diário de um cubano na Ilha de Santa Catarina

Embaixador de Cuba no Brasil vem a Florianópolis para fazer palestra em ato de solidariedade a seu país. De lambuja, dá entrevistas, é recebido pelo governador Luiz Henrique da Silveira, pelo presidente da Assembléia Legislativa, Volnei Morastoni, e diz que a Ilha, a da magia, é parecida com Havana.

Já é quase uma hora da madrugada da terça-feira 9/9 quando o embaixador de Cuba no Brasil, Jorge Lezcano Pérez, confirma uma informação antiga, mas assombrosa, de 1999. Ele está sentado no banco de trás do Vectra de placa MDS 8372, prateado e de propriedade do governo do Estado de Santa Catarina. A sua voz de trovão tem um leve e inofensivo perfume de limão e cachaça. A noite é fria, a bandeirola de Cuba está pendurada numa antena no lado direito do capô, tremulando sob a noite de Florianópolis. De acordo com o Direito Internacional, o carro que transporta o embaixador do centro da cidade para a Carvoeira, bairro nos arredores da UFSC, é parte do território cubano. Um pneu furado seria passível de qualquer suspeita, de traquinagem a terrorismo.

Acomodado, o embaixador vinha falando sobre mídia. Fazia elogios sinceros, quase fervorosos ao Fantástico (“A TV brasileira é curiosa: ou se faz coisa muito boa, como o Fantástico, ou muito ruim, ruim demais”) e lamentava revistas como Veja (“De veja mesmo não tem nada”). De repente, confessou: “Florianópolis é muito bonita, gostei demais dela. É parecida com Havana, pela beleza, o mar, o jeito de ser das pessoas…”. O assunto logo voltaria às artes, à literatura em especial.

Lezcano Pérez ficou então sabendo que nos últimos dias de julho de 1999 acontecia em Chapecó a “Conferência Estadual Por Uma Educação Básica no Campo”. Nela, representantes de vários movimentos sociais, o MST à frente, discutiam maneiras de socializar a educação em todo o interior. No sábado 31 daquele mês, o sociólogo José de Souza Martins, depois de sua palestra e após conceder entrevista ao jornalista Fernando Evangelista, que à época captava imagens para o documentário Reações em Marcha, revelou um fato que foi o assombro de Evangelista e sua equipe: 1 milhão de exemplares de uma edição de Dom Quixote, com gravuras de Pablo Picasso, havia sido vendido nas ruas de Cuba em apenas uma semana.

A essa altura já são 12h52min. O embaixador ouve a história até o fim, sereno, e sorri com uma ponta de orgulho: “É verdade. Dom Quixote foi o primeiro livro editado em Cuba depois da vitória da Revolução. Todos, em todo o canto, leram Cervantes”.

Cabo Damásio, motorista do setor de transportes do Palácio do Governo, e tenente Eduardo, que trabalha na residência do governador, na Agronômica, ambos à paisana, terno e gravata, alheios à conversa, são diligentes o bastante para evitar imprevistos. Em menos de 20 minutos, num trajeto que percorreu as ruas do centro, o túnel Antonieta de Barros e o Saco dos Limões, estacionam o carro já dentro dos muros do hotel Quinta da Bica D’água. O embaixador Lezcano Pérez agradece a atenção de todos, mas reclama um sono que bem merece. A segunda-feira 8 de setembro, em Florianópolis, fora de quebrar.

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Abertura de reportagem publicada no Fato & Versão, jornal-laboratório do curso de Jornalismo da Unisul, campus  Pedra Branca.


Shrek Stewart

16/11/2011

O filme de Frank Capra...

...e o último Shrek.


Crônica 14/11 – Diário Catarinense

14/11/2011


Há farsas que só o cego enxerga

Um farsesco episódio político da semana passada me fez recordar duas passagens da melhor literatura. Primeiro, vejamos a ficção, para depois falar do inverossímil.

Há um livro de Victor Hugo chamado O Homem que Ri. Nele, é contada a história de um menino que, raptado por uma confraria diabólica que realmente existiu na Europa alguns séculos atrás, passa por um procedimento cirúrgico que lhe deixa o rosto repuxado nas bochechas. Para o resto da vida, ele carregará na face um sorriso eterno. Quem lhe fez essa monstruosidade tinha a intenção de vendê-lo como bobo da corte a algum burguês, nobre, príncipe ou rei, exatamente como as outras crianças raptadas e “modificadas” com sucesso – havia mercado para esse tipo de “produto”. Se bem me lembro do enredo – lá se vão anos desde que li o livro –, o protagonista desse belo romance consegue escapar dos confrades antes de ser arrematado por algum comprador, e é recolhido, faminto e enregelado, na floresta por um artista mambembe, que promove pequenas apresentações nas aldeias e vilas em troca de dinheiro ou comida – e nada dá mais dinheiro, como bem sabem até hoje certos produtores da TV, do que uma boa aberração. Então ocorre a mágica: lá pelas tantas, é integrada à equipe circense uma mulher que é cega de nascença, por quem o jovem horrendo se apaixona. E vice-versa: ela jamais verá o esgar absurdo, ele pela primeira vez se sente amado, e não faz a mínima questão de que ela um dia volte a enxergar. É um belo romance, como já disse, mas é de uma cena em específico que eu me lembrei. Se não me engano (de novo), quando o menino se torna homem, descobre que é filho de um importante político britânico, já falecido, e por essas e outras consegue uma cadeira na Câmara dos Lordes, ou pelo menos lá discursa certa ocasião. E é nesse momento que acontece algo incrível: enquanto fala ao plenário sobre uma reivindicação popular, o Homem que Ri vai se irritando, se inflamando, e quanto mais ele se indigna, mais aberto, mais elástico, mais escancarado e indisfarçável fica o riso forçado em sua cara, quando então o plenário quebra o silêncio e vem abaixo em gargalhadas. Ninguém, nem quem preside a sessão, consegue levar aquele freak a sério, e quanto mais zombam dele, mais o Homem que Ri se irrita, a ponto de o ódio tornar-lhe a face risonha como a do maior palhaço que a humanidade já avistou. Victor Hugo, com o seu talento monumental para a narração e a descrição, nos transporta para dentro dessa criatura vexada e irada que, ao arengar sobre algo muito sério, em favor dos povos, é troçado e vira motivo de escárnio dos demais políticos, que dessa forma esvaziam-lhe o discurso e a mensagem. Uma experiência de leitura constrangedora e desconcertante, soberba e inesquecível.

A outra lembrança que me veio foi uma passagem de um dos contos, ou de um dos primeiros romances, do colombiano Gabriel García Márquez. A história se passa em uma daquelas cidadezinhas colombianas irreais, típicas do realismo fantástico latino-americano que o autor ajudou a popularizar. Não sei por que um dia alguém vai atrás do delegado na chefatura de polícia e não o encontra lá. Alguém indica que é provável que ele esteja em casa, e o sujeito que o procura toma esse rumo.

Chegando à residência, flagra o delegado atirando de espingarda contra as nuvens, sem motivo aparente. Então o sujeito pergunta por que diabos o delegado está fazendo isso, e o delegado responde, com a maior naturalidade: para fazer chover e aliviar o calorão dos infernos que faz nessa cidade de merda.

Agora veja este caso que deve entrar para os anais da política catarinense, o qual o DC registrou na edição de sábado, para espanto completo dos leitores atentos. Na terça-feira, a prefeitura de Itajaí encaminhou à Câmara de Vereadores o texto do projeto de Orçamento para 2012. Minutos antes de começar a sessão, o vereador Marcelo Werner, do Partido Comunista do Brasil, fez o que todos os outros vereadores deveriam ter feito: leu o documento. Por meio de sua assessoria, porque ele é cego. Pois foi o político que não enxerga quem descobriu a farsa sob o nariz de todos: o nome de Itajaí não aparece na apresentação do texto oficial, mas sim o de Porto Velho (RO), e trechos do documento podem ter sido copiados do documento redigido nessa cidade. Isso que o projeto passou pelas mãos (não os olhos, presume-se) de secretários, procuradores e até do prefeito. Incrível.

E agora me ocorre uma terceira passagem literária, essa do Mario Quintana: “Analfabeto de verdade é quem sabe ler, mas não lê”.

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Livingstone

Excelente notícia, para estudiosos, acadêmicos e interessados em História: a tecnologia atual (emissores de luz e câmeras digitais) acaba de desvendar um velho manuscrito do aventureiro escocês David Livingstone. Só assim se pode ler sobre um evento testemunhado pelo explorador: o massacre de africanos por traficantes árabes em 1871.

Santo “revival”

O velho Black Sabbath está de volta, com Osbourne, Iommi, Butler e Ward. Fará turnê mundial e gravará disco de inéditas. Foi a notícia do 11/11/11.

Campeão de tudo

Não é o Inter, novato em glórias internacionais, mas o Brasil. O DC de domingo trouxe reportagem mostrando que os remédios, aqui, são, em geral, muito mais caros do que no resto do mundo. O mesmo ocorre com os carros, as roupas, os eletrônicos…


Crônica 13/12 – Diário Catarinense

13/11/2011


Mulher-mais-que-mulher

Haverá de ficar orgulhoso e se sentir invencível o primeiro homem compromissado que descobrir o motivo pelo qual a sua mulher o escolheu. Este é o maior mistério de um relacionamento. Deve haver, por trás desse segredo, por debaixo desse véu de dúvida, tão delicado, uma extraordinária e feliz conjunção de química com circunstâncias, que começa no flerte e se confirma na cama. Do jeito, do tato e do cheiro à intuição atávica, natural, de que ele, o eleito, a fará mais feliz.

Porque me parece que é isso, e quiçá só isso, o que acontece: as mulheres ficam para si com os homens que as fazem mais mulheres, que as deixam mais femininas, que silenciosamente as estimulam a ser o que gostam de ser: mulheres, mulheres confiantes, felizes. E não existe mulher mais mulher do que a que se sente e se enxerga mais jovem. Por isso o espelho é, em geral, a bad trip da mulher. Acontece que você é o homem dela porque você a salva dessa viagem ruim e a faz sentir-se jovem. O mais masculino dos talentos: formar um casal e rejuvenescer uma mulher.

Talvez seja por isso que não haja verde, indireta, pergunta ou interrogatório que arranque da mulher-mais-que-mulher a explicação desse mistério: ela está tão realizada, satisfeita e contente “que nem sei” – e aí se sai com o que lhe ocorrer de mais simpático e galanteador na hora, antes de pegá-lo pelas bochechas e beijá-lo com a maior paixão dissimulada de que se tem notícia.

Pior, ou melhor: ao ser escolhido, você entra para a história da mulher, e a história de uma mulher é o acúmulo das suas escolhas amorosas – e consequências.

Cada mulher traz consigo a lembrança de todos os seus homens. Alguns se perderam no tempo, é verdade, mas por algum motivo tolo, como, por exemplo, o de o homem atual provocá-la com esse assunto, ela vai recordar que “sim, é mesmo, teve o Fulano, mas cruzes, nunca mais ouvi falar na criatura”. Outros que sumiram também, mas se materializam por acaso, do nada, na fila do supermercado, num corredor qualquer, dão aquele susto e desaparecem, porque já fizeram nova vida. Com um ou outro ela mantém contato, demora-se ao telefone ou pela internet, papo furado e descompromissado, em segredo. Um dos que a fizeram feliz de verdade ainda a procura, lhe escreve e-mails, refere-se aos velhos tempos, liga quando está na cidade, cutuca no Facebook: é um chato e não sabe disso, ela o tolera e o administra à distância. É triste, até, pois é possível que esse chato nunca vá compreender que o antípoda da mulher-mais-que-mulher, curiosamente, é o homem que não envelhece.

Mas você quer porque quer saber por que a sua mulher o escolheu, e pergunta de novo. Ela responde “sei lá, porque adoro o seu braço, desde o começo”. Você fica intrigado. Nunca notara o braço – é forte, não é, é magro, não é magro – e então passa a fazer flexões e a cultuar os braços, como fazem os braçudos. Semanas depois, ela vai reclamar, e reclamando demonstrar que o motivo dela é outro: “Eu gosto do seu braço, não desse aí, que parece…” de He-Man, de troglodita, sabe-se lá com o que ela vai comparar.

Claro: não é o braço, nem o cabelo, nem a altura, nem a barriga, nem a pronúncia. Se o braço for assim ou assado, melhor; se o cabelo ficar um pouco grisalho, mais charme; se for baixo e parecer alto, ou ser baixinho mesmo, não importa; barriga é coisa de homem; se falar naquele tom que ela gosta, e der o sorriso que ela ama, perfeito; mas nada disso será o motivo pelo qual ela o escolheu. O ponto central é que também por todas essas coisas você a faz mulher-mais-que-mulher.

E isso, elas sabem, não tem preço.

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Novembrada Cultural

Em 2004, a Frente em Defesa da Cultura Catarinense reuniu centenas de artistas e produtores em uma passeata na Capital, com Salim Miguel e Eglê Malheiros à frente, e conseguiu, junto ao governo do Estado, que a Fundação Catarinense de Cultura não fosse extinta, por exemplo. A Frente está de volta, ainda mais articulada, e ao longo deste mês promete “eventos e manifestações reivindicando as questões que já foram pauta de reuniões e mais reuniões, manifestos e mais manifestos, e, mais ainda, que sejam urgentemente resolvidas”. É mais uma tentativa de fazer os governos entenderem que é preciso que se crie de uma vez por todas uma política pública para a Cultura no Estado.

Maratona Cultural

Para conhecer mais e melhor os artistas catarinenses, e ver convidados nacionais, entre os dias 25 e 27 – um fim de semana – vai ocorrer a Maratona Cultural de Florianópolis. Música, artes plásticas, cinema, teatro, literatura apresentados em 23 diferentes lugares da cidade, do Ribeirão da Ilha ao Forte de Santa Bárbara, da Barca dos Livros ao Mercado Público, do Teatro da UFSC à Escadaria do Rosário. É a primeira vez que um evento desse tipo, com essa abrangência, ocorre na cidade, dizem os organizadores.

Descanso

Para você que trabalha amanhã, que o domingo lhe seja leve – pelo menos, até a hora do Fantástico. Para quem vai fazer feriadão, que o domingo se estenda até terça-feira.


Crônica 12/11 – Diário Catarinense

12/11/2011


Pelo litoral

É sábado, e se a previsão do tempo tiver errado e tudo sair conforme as nossas expectativas, o dia amanhecerá lindo. O sol vai aparecer e esquentar o quarto, o céu estará azul convidando à rua. Vamos lavar o rosto, tomar um farto café da manhã, escovar os dentes e nos olhar no espelho com o rosto besuntado de protetor solar. Você vai usar este biquíni novo que descobriu e comprou naquela lojinha simpática, vestir um short e calçar chinelos. Eu vou, ora, ora, estrear a sunga boxe que você me presenteou e faz questão de que eu use hoje. Juntaremos as cadeiras ao guarda-sol, você vai preparar aquela bolsa, aquela sacola, sei lá, com tudo que é preciso levar para a beira da praia, esses cuidados e esses confortos de que só mulher se lembra: mais protetor solar para o corpo e para o rosto, óculos escuros, carteira, toalhas, uma canga, os telefones, um bom livro. Vamos acomodar tudo no carro e pegar a estrada do litoral.

Como é grande a costa de Santa Catarina! Como a conhecemos pouco! Já fomos para o Norte, não muito longe, é verdade, algumas dezenas de quilômetros. E, no entanto, o quanto vimos por lá! Praias de que não sabíamos o nome e só tínhamos visto pelo Google Maps. Estradas em geral bem cuidadas, inteiras, ainda novas, que nos deixam apreciar uma natureza de cartão-postal. As banquinhas de beira de rodovia, de marginal, o caldo de cana, o suco gelado, o picolé de fruta, a cerveja no ponto. E essa estradinha, para onde será que leva? Vamos descobrir agora. E então surge um mirante que não pode ser ignorado e que nos permite ver, ainda distante, lá longe, esse mar azul catarinense, lindo como nas propagandas oficiais de turismo, como nos filmes de férias de verão. De 10 a 0 nos dos estados vizinhos.

Armaremos o guarda-sol e ficaremos esparramados nas cadeiras. Eu à sombra, você ao sol, provavelmente. E, juntos, faremos nada. Apenas olhar o mar, o céu, queimando. Se não estiver ventando forte, eu vou para a água assim mesmo, e lá ficarei por bom tempo, esquecido da vida e do resto. De vez em quando, ou pelo menos uma vez, eu vou procurá-la na areia, e acenar de longe. Você vai espichar o pescoço, sorrir e acenar de volta. É com esses pequenos gestos que se faz um bom sábado.

Mais pessoas chegarão à praia, trazendo mais ou menos acessórios, mais ou menos vontade, mais ou menos entusiasmo. E aos poucos, a cada meia hora arrastada, que é como o tempo passa na praia, a faixa de areia estará bem ocupada. Ocupada demais para a nossa preguiça. Não tem jeito: quando o espaço não for mais nosso, recolheremos tudo e embarcaremos no carro novamente.

Mais um passeio, outra estradinha, desce aqui, entra por ali e chegamos a outra praia, esta mais deserta, já em outra cidadezinha. A praia é pequena, há pouca areia, os barcos de pesca estão atracados, ao balanço do mar sem ondas, por toda parte. Então um pescador, morador desde sempre do pequeno balneário, generosamente vai nos indicar aquela trilha ali, que sobe o pequeno costão esquerdo. Subiremos, desceremos e eis a prainha quase deserta, linda como nas propagandas oficiais de turismo, como nos filmes de férias de verão. De 10 a 0 nas dos estados vizinhos.

Uma rápida olhada nos permite perceber que é uma praia de baía, pedregulhos nas duas pontas, árvores, muitas árvores à beira-mar, oferecendo sombra natural. A areia é como aquela da Bahia, minada de conchas, pedrinhas – gostosa. Quando cair a tarde, de lá voltaremos renovados, energizados, mais felizes, acho até que mais catarinenses.

***

Hoover

Estreou nos Estados Unidos o filme J. Hoover. Dirigido por Clint Eastwood, traz Leonardo DiCaprio no papel de John Edgar Hoover, o temido chefe do FBI, o qual comandou durante 48 anos. Manolah Dargis, crítica de cinema do jornal The New York Times, assistiu ao longa e escreveu que Clint foca mais na vida privada – desconhecida aqui no Brasil, diga-se – do que na persona pública de Hoover. A conferir – sabe-se lá quando.

Moscou é aqui

Procure no Facebook uma foto do trânsito absurdo de Moscou, capital da Rússia. Quem viu, fechou: é Floripa às sextas-feiras, nas vésperas de feriado e das festas de fim de ano. Lá, porém, há uma ordenação esquisita nas filas, quase geométrica, estudada, que quase nos faz duvidar da autenticidade da imagem, já que estamos acostumados ao cada um por si e todos contra todos. Mas é verdadeira.

Chuva?

É sábado, mas se tudo der errado, se a previsão do tempo tiver acertado, o céu amanhecer encoberto e um vento frio trouxer chuva já pela manhã, azar. Façamos nada mesmo assim.


Crônica 11/11 – Diário Catarinense

11/11/2011



Mudar, mudar!

O amigo Rodrigo Octávio me diz, no bate-papo do Gmail, que está procurando mudar velhos hábitos, depois do que viu lá fora, da experiência que vivenciou no mundo mais-que-americano do Texas e certas adjacências escolhidas a dedo, em sua primeira viagem internacional. Eu respondo com um incentivo, que ele siga firme e não esmoreça. “Nada mais difícil do que essa luta contra aquilo que nos oxida e nos faz perder tempo, sem que percebamos”, penso.

Mas, que digo eu! Também chego à mesmíssima conclusão que o Rodrigo depois de cada viagem à roda do meu quarto, que é onde fico enfurnado para escrever, trabalhar e pensar na vida. E é com esse pensamento, essa determinação cega – é preciso mudar, mudar! –, que de vez em quando eu vou à janela, ou à sacada, e olho para fora. Por esses dias, o sol está sempre alto, nunca há nuvens e, em geral, passa muito do meio-dia. O calor é tão brabo que ninguém se arrisca naquele lugar que é o país para o qual preciso viajar, a terra que preciso visitar de vez em quando para que os velhos hábitos, os meus velhos hábitos, comecem a mudar: a pracinha aqui em frente.

Sei, por conversas com vizinhos – esses conterrâneos desconhecidos, esses companheiros de viagem de quem não sei o nome ou a idade –, que a praça é uma conquista da comunidade. Foi preciso que a vizinhança se mobilizasse, exigisse, gritasse, manifestasse toda a sua vontade de ter uma praça para que os vereadores, os empreendedores e as pequenas realezas que, no microplano, mandam e desmandam em Florianópolis, aceitassem ter uma praça em vez de mais um prédio no lugar.

Vencida a disputa, com tudo combinado, nasceu a pracinha. E tem crescido, ano a ano: já ganhou árvores, um gramado extenso com campo de futebol, quadra de vôlei de praia (estamos em Florianópolis, estamos também no Rio), bancos para os namorados e as mães descansarem enquanto as crianças se divertem e esfolam os joelhos nos brinquedos do parquinho – escorregador, gangorra, balanço, uma estrutura semelhante a uma cabana que oferece mil desafios –, um passeio traçado com britas, iluminação própria. E lá está ela, à espera de quem tanto a desejou, pedindo para ser desfrutada.

E como é utilizada e aproveitada a pracinha! As senhoras a percorrem durante 40 minutos, num trote rápido de quem – veja só – parece muito preocupado com os rumos da própria vida. Os homens de meia-idade correm em volta dela, controlando os minutos no relógio de pulso, caminhando para tomar fôlego. As crianças fazem lá a anarquia inocente delas. Os casais procuram os bancos e namoram como se não estivessem nem um pouco preocupados com os rumos da vida. As amigas se deitam ao sol nas tardes de sábado e trocam uma conversa preguiçosa, até que adormecem acariciadas pela brisa que alivia o torrão. Balzaquianas correm, caminham, se exercitam e cuidam dos filhos: tudo ao mesmo tempo, pois acham – bobas – que a vida as está traindo e passando muito depressa, levando-lhes a beleza. E eu na sacada.

É que a pracinha está, para mim, à mesma distância que o Texas e o mundo lá fora estão para o Rodrigo. Não deveria, porque eu saio do portão, atravesso a rua e estou na praça. Mas o dia a dia, o vaivém e o cotidiano atribulado tornam este um destino inalcançável. Eu já andei por lá, claro. Também eu fui cuidar de criança. Também eu namorei sentado. Também eu bati uma bola ou outra. Também eu – confesso – escalei a cabana desafiadora. Também eu caminhei e corri em volta da praça. Mas sempre de passagem, esporadicamente, sem regra nem disciplina, como um turista.

Vou à janela, espio a praça, e decido: hoje eu volto lá.

***

A besta do exame!

Cada vez que sai o resultado das provas do Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) é aquele alarde: metade ou mais da metade ou – o que é mais comum – muito mais da metade dos inscritos é reprovada. Agora, foi a vez do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, que aplicou uma prova, ainda que não obrigatória, e colheu este resultado final: dos 418 formados que responderam às questões, quase 200 não foram aprovados. Eles ignoram conteúdos básicos a respeito de diagnósticos e tratamentos de doenças e problemas como dor de garganta. Decerto as provas é que são estúpidas!

Vale a pena

Expressão que não entendo: “Vale a pena a leitura”. Alguns vão ainda mais longe: “Realmente vale a pena ler esse texto”. Decerto ler dá muito trabalho.

Na pinta

E o Nem, um dos traficantes mais procurados do Rio de Janeiro, cidade rica em traficantes, foi preso na madrugada desta quinta-feira como se já soubesse que iria virar o centro das atenções globais e nacionais: de camisa e calça social. Exatamente como um homem de negócios sério deve se vestir.


Crônica 10/11 – Diário Catarinense

10/11/2011


Vejamos…

O leitor deve estar agitado e apreensivo com as notícias sobre a quarta ponte que o governo estadual pretende construir na Capital, a repercussão tremenda da ocupação e da expulsão dos estudantes da Universidade de São Paulo, o aumento no preço da gasolina que estão anunciando para breve, o surgimento do Guga quase como um intelectual orgânico da nova forma de pensar Florianópolis, os estranhos acontecimentos envolvendo as plantações no Oeste do Estado, os congestionamentos monstros na Grande Florianópolis, a faxina da Dilma, o câncer do Lula, a crise na Grécia e a derrocada do euro, a questão dos inválidos da Assembleia Legislativa, as grandes chances de o Figueirense se classificar para a Libertadores da América e de o Avaí ser rebaixado na última rodada com uma derrota para o arquirrival, os próximos capítulos da novela das seis, os próximos capítulos da novela das sete, os próximos capítulos da novela das oito, as manchetes de hoje à noite no Jornal Nacional, a prometida renúncia de Silvio Berlusconi, o encolhimento gradual da faixa de areia das praias de Floripa, o comentado nu frontal da atriz Lindsay Lohan na Playboy norte-americana de janeiro, o texto-base do Código Florestal apresentado pobre Amazônia pelo ex-governador Luiz Henrique da Silveira e aprovado nas comissões de Agricultura e de Ciência e Tecnologia do Senado, os preços exorbitantes dos ingressos para as partidas da Copa do Mundo de 2014, o pobre rottweiler que foi arrastado de carro em Piracicaba e teve uma pata amputada, a onça que foi encontrada dentro de uma churrasqueira em Corbélia (PR), a posse do senador ficha suja Cássio Cunha Lima, a descoberta antes tarde… de bingos e cassinos em Balneário Camboriú, a chegada de argentinos já em novembro ao balneário de Canasvieiras, a morte esquisita da rainha da Bigfest, a provável criação da Zona Azul nas ruas de São José, a morte do boxeador Joe Frazier e a condenação do médico de Michael Jackson, as infidelidades do casal Ashton Kutcher e Demi Moore e essa possível paternidade do Justin Bieber, a passagem de raspão do asteroide 2005 YU55, o caso de corrupção no Ministério do Trabalho, o número de mortos nas enchentes na Tailândia, a repressão sanguinolenta na Síria, a ocupação da região de Wall Street, o leilão do trem-bala brasileiro, a possibilidade de estar incluído no sexto lote de restituição do Imposto de Renda, os testes de votos via iPad nos EUA, a turnê em que a Maria Rita promete cantar músicas da mãe dela, a falência ou a excelência do Sistema Único de Saúde, o bebê morto porque recebeu leite na veia, a evasão de dólares do nosso país e da nossa economia, o aumento do IPI para os carros importados que passa a vigorar em dezembro, as ameaças atômicas do Irã e seu presidente bisonho, as operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro, o incêndio criminoso e revoltoso da Câmara de Vereadores de Jaborá, a senhora de 68 anos que morreu atacada por uma vaca em Timbó, a exposição das vaquinhas da Cow Parade 2011 e a programação completa da Novembrada Cultural…

É tanta informação, são tantas e tão variadas as notícias, que eu entendo o nervosismo do leitor. Por isso, deixo-o nesta quinta-feira sem nenhuma opinião, sem nenhuma amenidade aprazível, nenhum ponto de vista veemente sobre qualquer assunto. Sem ira e sem poesia, quem sabe sem eira nem beira. Amanhã é sexta-feira, e a vida volta a ficar mansa.

***

Veja e grave

Um serviço bacana acaba de estrear nos Estados Unidos: o PlayLater. O site permite que o usuário baixe os filmes e as séries de TV de várias empresas que os oferecem por streaming, pela internet, como o Netflix. E custa apenas US$ 5.

Mais essa

O Escritório de Arrecadação de Direitos Autorais (Ecad), cuja atuação é até bem-intencionada, está armando uma briga com o pessoal do festival SWU, que ocorrerá entre os dias 12 e 14 de novembro, em Paulínia, município localizado no interior de São Paulo. É que o Ecad resolveu cobrar R$ 1 milhão dos organizadores do evento referentes aos direitos autorais da edição 2010 do evento!

iOS x Android

Os sistemas operacionais dos smartphones e tablets estão em guerra total: o iOS da Apple, utilizado nos iPhones e iPads, contra o Android do Google, contra o Windows Phone, etc. O jornal inglês The Guardian se pronunciou esta semana sobre por que publica mais avaliações de aplicativos desenvolvidos para a o sistema da Apple: porque ainda são melhores e mais úteis dos que os demais.


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