A crônica de hoje, no DC!

08/02/2010 por flenhart

Ao Fábio e à Ju

Casal querido, escrevo esta carta porque sei bem como é: a gente sai de Floripa por um mês e acha que nada vai mudar ou acontecer no período – que dirá duas semanas, que é o tempo que vocês estão aí na Europa! Ah, mas já temos novidades…

Mal vocês embarcaram rumo ao inverno parisiense e Floripa tornou-se um inferno. O calor não cede há dias: temperaturas acima dos 30º, sensação térmica sempre superior aos 40º. E não chove! Em Joinville, um termômetro marcou 45°, em Criciúma dizem que fez mais que isso à sombra. E vocês aí, encapotados: a Ju de cachecol e você de sobretudo e luvas, o Le Monde na mesa, tomando vinho num café de boulevard…

Fábio, começou o Big Brother, e tive de dar unfollow em comentaristas de BBB que abundam no Twitter. O Ben-hur esteve na cidade e lamentou a sua ausência na hora do brinde – ele está namorando e continua o mesmo pensador ateniense, só que de cabelo curto! O Ricardo não pode ir ao encontro, e ignoro se já voltou a trabalhar ou continua gozando as férias intermináveis ao lado da Tati e dos meninos.

Que mais? Ora, o meu carro continua batido, mas confortável. Na quinta passada, teve clássico no Scarpelli: deu 2 a 2, mas não se engane, o alvinegro seu e do Wolff está mal. Na sexta, o Berbigão do Boca voltou a bagunçar alegremente o Mercado Público – creio que a falta confirmada de vocês no desfile da Copa Lord tenha sido a fofoca da noite.

E Fabinho, escuta essa: inventaram um “Baixo Lagoa” pra cidade! Então, de brincadeira, criei o Coqueiros Hollywood, que é o miolo do bairro, e o Coqueiros Soho, que vai do Sobradinho à Toca do Paru, onde vocês moram, para que a gente lembre sempre daquela noite agradável que passamos em Palermo.

A Beyoncé baixou na Ilha para fazer um show considerado histórico– felizmente eu não fui nem cheguei perto, porque vocês sabem que minha ideia de fazer história é outra. No mais, tudo certo. Ah, nasceu um Antônio, e uma Clara foi revelada no ultrasom…

Avisa à Ju que a Cibele tem “mandado brasa” lá na firma. Não vejo o Gustavo e a Nina desde aquela noite no Taikô. Também não sei da Sanny… Mas esse desencontro a gente resolve ainda este mês, com mojitos e burritos.

Ah, dois favores: na Shakespeare and Co., digam à Sylvia que um dia eu chego lá, e, se não for pedir muito, mandem um abraço ao Victor Hugo.

E não custa lembrar, meus pombos: voltem sempre.

Um beijo e um abraço nos dois.

A crônica de hoje, no DC!

01/02/2010 por flenhart

Plástica

Florianópolis moderniza-se. Primeiro foi o Tapete Preto, operação de melhorias da malha viária que chegou à capital depois de farta aprovação popular em metrópoles como São José. Em seguida começaram a ocorrer as primeiras sunset parties, emulando em Jurerê Internacional o que talvez de mais ostentatório exista em recantos rodeados de pobreza como Saint-Tropez e Ibiza. Em dezembro, até uma árvore de Natal com LEDs nos foi apresentada com estardalhaço, concorrendo em prestígio com a da Lagoa Rodrigo de Freitas e a do Parque do Ibirapuera, apesar de nunca ter sido ligada direito. E agora ganhamos o direito de, a exemplo de Buenos Aires, São Paulo e Rio de Janeiro, rebatizar os nomes de certos bairros para adequá-los ao roteiro das festas e baladas – eis o “Baixo Lagoa” circulando desde semana passada. A própria divisão de Jurerê em duas já era um indicativo desta tendência, mas, como sabemos, toda tendência precisa viajar mundos antes de chegar, já caduca, a Florianópolis. Pois aqui vão algumas sugestões:

Coqueiros Soho – Basicamente, o Itaguaçu. Vai do Sobradinho à Toca do Paru. É frequentado por um público alternativo, que não se importa de sair na noite metido em bermuda e camisa do Figueirense, sobre chinelos de dedos. É onde se bebe pinga em copinho de barro, cerveja em copo americano e se come peixe com as mãos. O poder aquisitivo é baixo, tendo como referência o piso da categoria dos jornalistas.

Coqueiros Hollywood – Todo o trecho da orla que, contraditoriamente, vai do Argus ao posto de polícia. É onde estão localizados os bares mais descolados e os restaurantes mais chiques da Via Gastronômica. O pessoal se veste com mais apuro, carrega mais acessórios e tem muito mais pudor físico. Badalado, encontra-se ali desde o jornalista famoso que ganha mais que o piso salarial até a patricinha mais desejada.

Santo Antônio Boulevard – Ah, nada se compara a esse ponto privilegiado do Norte da Ilha quando o assunto é o happy hour à beira-mar, com vista para a Ponte Hercílio Luz. Mesmo de Havaianas nos pés, o habitué desta região, entre a praça da igreja e o início da estrada para Sambaqui, vira um bon-vivant. Durante o pôr-do-sol, então, nem se fala: todo mundo exibe a jovialidade e a sapiência de um Roberto Justus.

Baixo Caridade – Local do Centro que reúne empresários, maridos de folga e boleiros.

De Rubem Braga, com tristeza e alívio

28/01/2010 por flenhart

A minha biblioteca anda espalhada por três apartamentos, desorganizada e incompleta nos três lugares, por isso não pude conferir se a fonte do texto está correta. Mas que é do Velho, não resta dúvida – é um texto em sépia, cor do passado.

DESPEDIDA

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

(A Traição das Elegantes, Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83.)

Três vídeos

25/01/2010 por flenhart

Dois vídeos com cenas do aniversário do Beto e da Gi, no dia 16, aqui no prédio. Foi, como disse o Beto, “a maior festa da história do salão” da Rua Florenza 75. O outro é o clipe da música que levou a turma à pista de dança naquela noite, que teve até jogo de luz by Marcel.

A crônica de hoje, no DC!

25/01/2010 por flenhart

Vale o escrito

Quando eu fazia faculdade de jornalismo, caminhava pelos corredores do curso confabulando Watergates, imaginando famílias Clutter para eternizar e sonhando acordado com aventuras à David Nasser. Mas queria também ser cronista. Assistia a eventuais palestras do Sérgio da Costa Ramos no auditório e lia gênios do gênero em sala de aula e pensava que escrever crônica em jornal diário um dia seria realidade, prêmio que receberia, provavelmente, no fim de uma carreira jornalística mediana.

Nos corredores da universidade privada – microcosmo da vidinha classe média que eu vivia fora dali, nas ruas –, mais do que aprender jornalismo, a estudantada, em geral, considerava ver, ser visto e falar da vida alheia atividades muito mais urgentes. E numa crônica delirante que publiquei no jornal-laboratório, eu imaginava um evento diferente no campus: em cima de um tablado, microfone em punho, cada aluno revelaria, diante de todo mundo, um segredo, algo íntimo e, quiçá, vergonhoso. Então um subia e dizia “Eu roo a unha do pé”, e outro falava “Eu sou racista desde pequeno”, e outro “Só tomo banho a cada três dias” e assim por diante. Nonsense, mas foi uma forma de confirmar para mim mesmo que para quem decide escrever literatura – e a crônica é o espaço de fazer literário em um jornal –, vale o que está escrito. Ou ainda: quem escreve a salvo de regras de manuais se expõe, e assim é e tem de ser.

Veja o Cacau Menezes. Os leitores se contorcem de prazer quando ele dá um furo ou revela que certo grã-fino está a um passo da prisão, traiu ou foi traído, quebrou e está na pior. Mas as notas que mais tocam as pessoas são, certamente, ainda que poucos o admitam, aquelas em que ele conta suas crises de choro, seus momentos de angústia, suas tardes depressivas, seus achaques de consciência e noites de insegurança. É quando Cacau fica mais exposto, mais vulnerável a todo tipo de comentário por parte daquela massa de leitores que adora rir e falar mal do grã-fino em apuros, mas é também quando fica mais parecido conosco, que também passamos por situações como essas de vez em quando.

O leitor tem muitos direitos, como pular capítulos de um livro ou ler a última página antes de ler a primeira. Mas há quem também ache natural procurar entrelinhas que comprometam, duvidar da sinceridade, ver autopromoção até em texto de Twitter.

Então não custa repetir: até nova ordem, vale, sempre, o que está escrito. Escrito.